| |
|
Encontros
de formação
A MISSÃO
DA IGREJA NO MISTÉRIO DA SALVAÇÃO
Os cristãos
e a Igreja têm um papel insubstituível de fermento
no meio do mundo, cujo fundamento assenta no facto de o Evangelho
em que acreditamos não ser um programa de normas feitas e
de indicações acabadas, mas um estilo de vida, à
maneira do Pai, no horizonte do reino de Deus.
O ensinamento
de Jesus acerca do reino de Deus é uma referência clara
ao senhorio amoroso de Deus sobre toda a história humana,
sobre todos os domínios da vida. Por isso a Boa Nova do Reino
é um desafio para as estruturas da sociedade.
O Evangelho contém um convite a ver o mundo com os olhos
de Deus e a ir construindo este mundo - a partir de uma mudança
de coração que deve transformar também as estruturas
- segundo os seus critérios, na certeza de que o reino de
Deus, já presente de forma germinal, atingirá a sua
realização final num mundo de irmãos e de irmãs.
1.
O mistério da Igreja
A Igreja aparece
como comunidade suscitada pela iniciativa do Pai no Espírito
Santo, pela acção reveladora e redentora do Filho
encarnado, morto e ressuscitado; ela é, essencialmente, um
mistério de comunhão à luz do Mistério
da Trindade.
Este enraizamento trinitário é de importância
fulcral para a compreensão, em toda a sua profundidade, do
ser e da missão da Igreja, ao apontar para o seu fundamento
primeiro e para a sua origem transcendente. A Igreja é a
primeira e fundamental realização dessa vontade divina
de comunhão; a sua mais profunda identidade é ser
espaço de realização do amor que vem de Deus
e que Deus é; ela é, no dizer do Concílio Vaticano
II: "um povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito
Santo" (LG 4). Na origem da Igreja, no seu peregrinar no tempo,
na meta final para onde caminha, a Igreja está, pois, assinalada
pelo mistério de Deus uno e trino. É na vida da Trindade
que ela tem a sua fonte vital, a sua referência imprescindível,
o seu modelo permanente. Ela reflecte em si a comunhão trinitária,
é a concreta representação sacramental-simbólica
do mistério trinitário; ela é, no dizer do
teólogo W. Kasper, "ícone da Trindade".
A Igreja surge como o lugar de encontro de Deus com a história
humana, como lugar onde os acontecimentos deste mundo são
permanente conduzidos rumo à sua plenitude em Deus.
A visão da Igreja transmitida pelo Concílio Vaticano
II retoma as grandes figuras trinitárias que descrevem a
Igreja: Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito
Santo.
Importa realçar estes três aspectos um pouco mais:
· A Igreja vem de Deus, isto é, ela é obra
de Deus, ainda que ela seja sempre também, em todos os níveis
e circunstâncias da sua realização, resultado
da liberdade humana. Tanto em termos de concepção
de Igreja como na acção pastoral é indispensável
fomentar uma particular sensibilidade crítica face a tudo
quanto, no viver pessoal ou comunitário eclesial, possa ser
ou parecer pretensão de auto-realização da
Igreja, tendência a sobrevalorizar as forças e critérios
humanos em detrimento da capacidade de acolhimento dos dons e dos
critérios de Deus.
· Outro aspecto diz respeito ao sentido da historicidade
da Igreja. A Igreja, nascida embora do plano eterno de Deus para
a salvação da humanidade em Jesus Cristo e destinada
à comunhão final com Deus, é, decisivamente,
uma realidade desta história, está estruturalmente
marcada pelas condições do tempo e espaço,
as suas configurações são necessariamente condicionadas
pelas circunstâncias históricas. O mistério
da Igreja não está para além, mas encontra-se
dentro da sua real historicidade, em analogia com o mistério
da Encarnação (LG 8).
· Por último, a visão histórico-salvífica
do mistério da Igreja permitiu chegar, através da
linguagem da sacramentalidade, a uma visão mais adequada
e mais profunda da sua realidade institucional. O nr. 8 da Lumen
Gentium exprime-o claramente ao realçar que a "instituição"
(a realidade institucional da Igreja) não está contra
o "acontecimento" (a vida da graça que a anima),
mas é chamada a ser o seu meio e expressão indispensáveis:
como sinal da irreversibilidade e da anterioridade do dom da salvação,
como instrumento da acção do Espírito identificador
e integrador. Uma sã consciência eclesial não
ignora dogmas, normas, instituições, sacramentais,
ministérios, autoridade constituída, estruturas de
ordem doutrinal ou canónica-disciplinar, mas intui que uma
Igreja ou comunidade eclesial que se orienta preferencialmente por
uma perspectiva jurídico-organizacional, ou que não
é capaz de perceber os limites das suas próprias expressões
institucionais, dificilmente compreende os anseios, os problemas
e os dramas existenciais das pessoas.
A Igreja como mistério de comunhão exprime a sua mais
profunda identidade, propondo, ao mesmo tempo, uma nova possibilidade
do viver humano e uma exigência de profunda solidariedade
entre os homens.
Diácono
João Carmona
|
|